Tinha suspirado
Tinha beijado o papel devotamente
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades
E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas
Como um corpo ressequido
Tinha beijado o papel devotamente
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades
E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas
Como um corpo ressequido
Que se estira num banho tépido
Sentia um acréscimo de estima por si mesma!
E parecia-lhe que entrava enfim numa existência
superiormente interessante
Onde cada hora tinha seu intuito diferente
Cada passo conduzia um êxtase
Sentia um acréscimo de estima por si mesma!
E parecia-lhe que entrava enfim numa existência
superiormente interessante
Onde cada hora tinha seu intuito diferente
Cada passo conduzia um êxtase
E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações
Ergueu-se de um salto
Ergueu-se de um salto
Passou rapidamente um roupão
Veio
levantar os transparentes da janela
Que linda manhã!
Era um daqueles dias do
fim de agosto
Em que o estio faz uma pausa
Há prematuramente, no calor e na
luz, uma certa tranqüilidade outonal
O sol cai largo, resplandecente, mas
pousa de leve
O ar não tem o embaciado canicular
E o azul muito alto reluz
com uma nitidez lavada
Respira-se mais livremente
E já se não vê na gente que
passa o abatimento mole da calma enfraquecedora
Veio-lhe uma alegria:
sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo
E todas as
agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele
repouso
(Eça de Queiroz, O primo Basílio)


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