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27 de agosto de 2014

É madrugada!



É madrugada agora. Tô acordada há horas pensando nesse dia, com a sensação estranha de inutilidade, um dia que me parece não ter feito nada. Mas é uma injustiça comigo mesma, fiz de tudo o que pude, corri contra o tempo, engoli a comida, subi e desci escadas diversas vezes, no hospital, na faculdade. Um dia extremamente desgastante, se é que me entende. Eu acredito que possa entender. Depois de um dia daqueles, em que houve um emaranhado de palavras ditas e não ditas. E estou aqui, há horas sem conseguir dormir mesmo meu corpo implorando e precisando disso. 

Como se cada ato ou olhar não compreendido refletisse em mim de uma forma gigantesca, porque reflete de fato. Como se eu estivesse amarrada pela verdade como uma âncora, ancorada num mar sem fundo. Assim foi hoje e acho que, muito provavelmente, continuará sendo amanhã também. E sabe de uma coisa muito louca e sem sentido? Desejo muito que continue exatamente assim. Sempre.
De um modo sutil, e de muito valor para mim, quero entender minhas angústias, estou tentando revelar a minha mente sentidos que permeiam nossa existência humana e éticas/profissionais, o que tem me angustiado demais ultimamente, mesmo sem diploma na mão. Tentei enxergar quem eu sou no espaço que eu ocupo. E é por tentar buscar isso, pensar muito nisso, que eu escrevo.
Às vezes, quase sempre, sinto um aperto no peito. Aperto que vem para dizer, falar e insistir nas certezas que duvido, o que eu já tô cansada de saber, mas que ainda não se concretizou por inteiro dentro de mim. É.. às vezes, quase sempre, fico cansada de saber.

"Então ela pede — Silêncio, por favor, enquanto esqueço um pouco a dor do peito —, tentando digerir a dor barulhenta que a atravessa. Ela tenta deixar o tempo passar para não se lembrar do que a deixou assim, tentando buscar uma pausa no espaço, algo que interrompa o tempo, fique lá esquecida, e não fique entrelaçada com ela. Ela até sonha que está fazendo isso de fato, sonha que está conseguindo deixar em uma pequena estrela na imensidão do universo. E então ela se lembra que o que a move não permite que ela se torne um misto de esquecimentos, de palavras que escondem o que sente, mas de coisas concretas e que constroem. Faz uma prece por uma amiga, irmã de alma, que passa por um momento MUITO delicado. Sofre muito com isso também. Queria poder fazer mais.
Ela está correndo atrás de muitos sonhos, principalmente o de ser livre. Essa é a esperança que a move. E ela sente no rosto o vento que entra pela janela, tocando leve, soprando no seu ouvido que ela pode continuar caminhando, ajudando-a enxergar e discernir quais direções existem nessa estrada."









25 de agosto de 2014

Lógica singular e inflexível



❝ Realmente, quando se observa a vida no seu crisol de dor e de prazeres, não é possível cobrir o rosto com uma máscara de vidro nem impedir que os vapores sulfurosos nos ofusquem o cérebro e nos turvem a imaginação com fantasias monstruosas e sonhos disformes. Há venenos tão sutis que, para os conhecer, cumpre experimentá-los. Há males tão estranhos que, pra lhes entender a natureza, é preciso contraí-los. Ainda assim, que grande recompensa recebe o observador! Em que maravilha se torna o mundo aos seus olhos! Notar a lógica singular e inflexível da paixão, a vida colorida e emotiva da inteligência…verificar onde se cruzam e onde se apartam, que delícia! Que importava o custo? Não há preço demasiado alto para semelhante sensação. ❞ — Oscar Wilde.


22 de agosto de 2014

El amor se mide en suspiros



Tinha suspirado
Tinha beijado o papel devotamente
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades
E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas
Como um corpo ressequido 
Que se estira num banho tépido
Sentia um acréscimo de estima por si mesma!
E parecia-lhe que entrava enfim numa existência
superiormente interessante
Onde cada hora tinha seu intuito diferente
Cada passo conduzia um êxtase
E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações
Ergueu-se de um salto
Passou rapidamente um roupão
Veio levantar os transparentes da janela
Que linda manhã! 
Era um daqueles dias do fim de agosto 
Em que o estio faz uma pausa
Há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal
O sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve
O ar não tem o embaciado canicular
E o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada
Respira-se mais livremente
E já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora
Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo
E todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso 

(Eça de Queiroz, O primo Basílio)

Para prosseguir, para não me perder, para não deixar as frestas do decidir da mente inquietas com a perigosa constatação de que o tempo é quem tem mandado em mim. Deixo aqui o que me inspira também, as "iluminuras" que iniciam aquilo que eu construo. E que o desconhecimento da certeza continuem a me envolver.




19 de agosto de 2014

Crisálida




Musa Consolatrix  

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
Da íntima paz de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte da mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, - e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!


(Machado de Assis, Crisálidas.)

 

14 de agosto de 2014

A Chave Dourada de Gabi


 
De repente, encontrou uma pequena mesa de três pés, toda feita em vidro sólido: não havia nada sobre ela senão uma minúscula chave dourada e a primeira ideia de Alice foi de que ela deveria pertencer a uma das portas da sala; "Mas, ai de mim! Ou as fechaduras são muito grandes ou a chave muito pequena, mas de qualquer maneira não iria abrir nenhuma das portas." Entretanto, na segunda tentativa, Alice encontrou uma cortina que não havia percebido antes, e atrás dela existia uma pequena porta de aproximadamente 40 centímetros: a menina colocou a pequena chave dourada na fechadura e, para seu grande prazer, ela encaixou!
(Charles Lutwidge Dodgson, Alice no País das Maravilhas)

Aqui se concretiza o velho desejo de que nascesse um espaço para transcrever tudo o que é meu. O significado da chave, aqui, não é trancar ou de tornar secreto. Mostra a minha verdadeira e imensa paixão por esta história cheia de significados, que demandam de uma busca laboriosa por encontrar o sentido de cada palavra escrita. Quero esmiuçar o sentido da chave e a razão de criar este espaço. Porque ela é tempo, sentido e por vezes, em sua maioria na verdade, impenetrável à razão. Sobretudo, é com a ação das mãos sobre ela que acontece o encontro de minúsculos fragmentos, o encontro de duas coisas concretas. Encontro que encaixa, abre e liberta.
Este é pequenino, é o início.

Toda vez que vier aqui é porque estou insatisfeita com o silêncio dos meus dedos, é porque preciso abrir a porta e transpassar o que há dentro. Quero que a minha vinda aqui seja sempre vivendo o “meraki”, uma palavra grega que significa: fazer algo com amor e criatividade, pondo alma nisso. 
 
É isso. Quero colocar aqui um pouco do meu tempo, o que penso. Quero deixar aqui um pedaço do que sinto. E se sinto, é meu. O que escrevo, sou eu.

E assim, começa a idiossincrasia da busca por este encontro entre a pequenina chave dourada e a sua, tão sua fechadura.

“Compreende a vida porque não é suficientemente inteligente para não compreendê-la. Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que aprendera, o que vira, e inaugurar-se em um terreno novo onde todo pequeno ato tivesse significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez."
(Clarice Lispector, As palavras)