Transcrevo
aqui um texto meu, antigo apenas de data, porque continua descrevendo
com uma certa delicadeza e fatalidade o misto de sentimentos que andam
me rodeando... Rodeando tanto que as vezes preciso sentir a sobriedade do chão firme sob os pés para não cair.
Os
pensamentos que preferem calar e mesmo assim, permanecerem inquietos. O que contorna todo meu corpo, as vezes luta para sair mas não consegue, causando estranhamento por não conseguir... talvez seja cedo demais para isto.O que continuo sentindo e o sentido do que é confiança e doação para mim, fio forte que mantêm e une uma relação. Fio que... quando é ameaçado tira o chão dos meus pés.
Quando minha consciência se depara com a ameaçadora constatação de que a vida é uma bomba relógio que pode estourar a qualquer momento e girar a sua vida inteira 360 graus. Ameaçando de fato a integridade de tudo aquilo que faz parte de você...
Não que eu não soubesse disso antes, como se fosse algo desconhecido, ou me deparado com uma tremenda decepção em relação a vida.. O que muda é que agora é dolorosamente mais real.
"Ouvi dizer bem baixinho no pé do ouvido que a saudade tem sono leve. Basta um movimento seu para que ela desperte. A verdadeira paz só pode ser dada por quem a criou, sei o caminho que ela percorre para chegar aonde tem que chegar, sei sua origem: o coração de Deus. Permiti que o meu coração fizesse a experiência dessa tranquilidade na alma, dessa plenitude. Matei uma saudade, que eu não imaginava que estava tão grande, tão esquecida, tão distante, mas tão dentro de mim. Lembrei das minhas sapatilhas, da dança, das dores nos pés. Eram quase tudo o que eu tinha naquela época. Me lembrei das músicas e das pessoas que já dancei. Cheguei mais perto da minha alma, daquilo que ela sente e do que quer me dizer, pois vi o quanto a música me construiu, me fez amar, o quanto ocupa minha história. Mesmo ferida me lancei ao vôo, então a sensação desagradável foi aliviada naquele tempo. Meu coração transbordou pelo corpo, simplesmente deixei meu corpo transmitir aquilo que a alma quis através do som, da música, da letra, do ritmo, do gesto, do toque no outro. Uma valsa, uma salsa, um samba entre o meu sentimento, e o sentimento do outro, unidos pela expressão, pela arte, pelos dons. Conheci mais a fundo o coração e a essência de uma amiga, que partilhou a experiência comigo no movimento. O arrepio na pele demonstrou o quanto meu coração gosta de sorrir e que tem um desejo ardente de reconstrução. Quero me abraçar, me sentir mais perto de mim mesma, me descobrir, me amar. Vontade de dizer que tenho muito amor no peito, e que minha doação não é parcial, é radical. É tudo, ou é nada. Há coisas nessa vida que é difícil de engolir, há ferida que arde e custa muito a sarar. Há cicatriz que incomoda. Há incômodo que não deixa nosso estômago em paz e há caminho que nem sempre tem volta. O que mais quero dizer, na verdade sobre tudo o que senti, é que estou podando o meu jardim. É, estou cuidando das flores que eu mais amo, que tem uma raiz profunda no meu jardim, tocando em alguns espinhos. Está doendo, sangrando muito, bem lá dentro, no meu âmago. Mas é preciso, pois quero mantê-lo vivo para sempre dentro de mim."
“In the universe, there are things that are known, and things that are unknown, and in between, there are doors.” (William Blake)
"Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela. Abafada, esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo.
– para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado."
(Mário Quintana)



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