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19 de setembro de 2014

Sintaxe à vontade

 

Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto
Nenhum predicado será prejudicado
Nem tampouco a frase, nem a crase nem a vírgula e ponto final!
Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
E estar entre vírgulas é aposto
E eu aposto o oposto que vou cativar a todos
Sendo apenas um sujeito simples
Um sujeito e sua oração
Sua pressa e sua prece

Que a regência da paz sirva a todos nós...
Cegos ou não
Que enxerguemos o fato
De termos acessórios para nossa oração
Separados ou adjuntos, nominais ou não

Façamos parte do contexto da crônica
E de todas as capas de edição especial
Sejamos também o anúncio da contra-capa
Mas ser a capa e ser contra-capa
É a beleza da contradição
É negar a si mesmo

E negar a si mesmo
É muitas vezes, encontrar-se com Deus.


Sintaxe à vontade, O Teatro Mágico


17 de setembro de 2014

E que a minha loucura seja perdoada


Accion Poetica en latinoamerica - Taringa!

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

(Metade, Oswaldo Montenegro)


15 de setembro de 2014

Ver o mundo em um grão de areia


 

Transcrevo aqui um texto meu, antigo apenas de data, porque continua descrevendo com uma certa delicadeza e fatalidade o misto de sentimentos que andam me rodeando... Rodeando tanto que as vezes preciso sentir a sobriedade do chão firme sob os pés para não cair.
Os pensamentos que preferem calar e mesmo assim, permanecerem inquietos. O que contorna todo meu corpo, as vezes luta para sair mas não consegue, causando estranhamento por não conseguir... talvez seja cedo demais para isto.

O que continuo sentindo e o sentido do que é confiança e doação para mim, fio forte que mantêm e une uma relação. Fio que... quando é ameaçado tira o chão dos meus pés. 
Quando minha consciência se depara com a ameaçadora constatação de que a vida é uma bomba relógio que pode estourar a qualquer momento e girar a sua vida inteira 360 graus. Ameaçando de fato a integridade de tudo aquilo que faz parte de você... 

Não que eu não soubesse disso antes, como se fosse algo desconhecido, ou me deparado com uma tremenda decepção em relação a vida.. O que muda é que agora é dolorosamente mais real. 




"Ouvi dizer bem baixinho no pé do ouvido que a saudade tem sono leve. Basta um movimento seu para que ela desperte. A verdadeira paz só pode ser dada por quem a criou, sei o caminho que ela percorre para chegar aonde tem que chegar, sei sua origem: o coração de Deus. Permiti que o meu coração fizesse a experiência dessa tranquilidade na alma, dessa plenitude. Matei uma saudade, que eu não imaginava que estava tão grande, tão esquecida, tão distante, mas tão dentro de mim. Lembrei das minhas sapatilhas, da dança, das dores nos pés. Eram quase tudo o que eu tinha naquela época. Me lembrei das músicas e das pessoas que já dancei. Cheguei mais perto da minha alma, daquilo que ela sente e do que quer me dizer, pois vi o quanto a música me construiu, me fez amar, o quanto ocupa minha história. Mesmo ferida me lancei ao vôo, então a sensação desagradável foi aliviada naquele tempo. Meu coração transbordou pelo corpo, simplesmente deixei meu corpo transmitir aquilo que a alma quis através do som, da música, da letra, do ritmo, do gesto, do toque no outro. Uma valsa, uma salsa, um samba entre o meu sentimento, e o sentimento do outro, unidos pela expressão, pela arte, pelos dons. Conheci mais a fundo o coração e a essência de uma amiga, que partilhou a experiência comigo no movimento. O arrepio na pele demonstrou o quanto meu coração gosta de sorrir e que tem um desejo ardente de reconstrução. Quero me abraçar, me sentir mais perto de mim mesma, me descobrir, me amar. Vontade de dizer que tenho muito amor no peito, e que minha doação não é parcial, é radical. É tudo, ou é nada. Há coisas nessa vida que é difícil de engolir, há ferida que arde e custa muito a sarar. Há cicatriz que incomoda. Há incômodo que não deixa nosso estômago em paz e há caminho que nem sempre tem volta. O que mais quero dizer, na verdade sobre tudo o que senti, é que estou podando o meu jardim. É, estou cuidando das flores que eu mais amo, que tem uma raiz profunda no meu jardim, tocando em alguns espinhos. Está doendo, sangrando muito, bem lá dentro, no meu âmago. Mas é preciso, pois quero mantê-lo vivo para sempre dentro de mim."



  “In the universe, there are things that are known, and things that are unknown, and in between, there are doors.” (William Blake)

 "Quem faz um poema abre uma janela.
 Respira, tu que estás numa cela. 
Abafada, esse ar que entra por ela. 
Por isso é que os poemas têm ritmo. 
– para que possas profundamente respirar.  
Quem faz um poema salva um afogado."  
(Mário Quintana)